Eu queria…

Difícil começar este post. Principalmente num dia tão estressante como hoje. Estou fora de casa, há praticamente duas semanas longe da minha rotina, perdi todas as aulas, mal vi minha filha no final de semana, não vi o primeiro dentinho dela cair, estou trabalhando feito uma maluca. Ou seja, cansada, com saudade de casa e da família, carente e preocupada.

É um dia perfeito para pensar e repensar na vida, nos objetivos, nas escolhas, parar e analisar o tempo que passou, as oportunidades perdidas, saber se tudo valeu a pena. Uma frase postada hoje pela @luizapossi no Twitter retrata bem o que estou sentindo: cada escolha é uma renúncia.

Renunciei a um trabalho bem mal remunerado para ter a liberdade de horário que sempre quis. Renunciei a este segundo trabalho para começar a faculdade. Hoje tenho que renunciar à faculdade para compensar perdas financeiras. Acabou virando uma bola de neve. Nesse meio venho renunciando ao tempo de cuidar da minha filha, da família, para tentar consolidar uma carreira. Faço planos e nunca concretizo, quero viajar mas nunca posso. Sempre há algo mais importante que me faz achar que o restante pode esperar. No final das contas eu acabo sempre em cima do muro.

Eu queria…

… não estar escrevendo este post

… estar em casa

… ter mais tempo para cuidar do meu bebezinho, que nem é tão bebezinho mais

… não ter que me preocupar se as contas vão fechar no fim do mês

… acabar logo a faculdade

… conciliar trabalho e estudo

… ter mais tempo para cuidar de mim

… ter tempo para praticar esportes

… não dar importância a determinados assuntos

… relevar certos comentários

… aprender a brigar pelo que quero

… acreditar na minha capacidade, que eu POSSO e que eu SOU, sem perder a humildade

… ter coragem para dizer BASTA

… aprender a dizer NÃO

… ligar o FODA-SE

… fazer o que quero, não o que acho que é certo

… fazer uma tatto

… correr, até meu corpo não aguentar mais

Melhor eu parar por aqui, porque esta lista não tem fim.

Ainda bem que tenho a internet e este blog para poder aliviar um pouco minhas tensões.

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Um comentário em “Eu queria…”

  1. Pois é Thaís,é dificíl eu sei me lembrou este poema aqui espero que goste à em tempo tbém vivo nesta loucura e quase não vejo meu filho crescer 😦

    Eu sei, mas não devia

    Marina Colasanti

    Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

    A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

    A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

    A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

    A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

    A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

    A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

    A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

    A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

    A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

    (1972)

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