Marcha soldado, cabeça de papel…

Sábado, dia 21/08, a coluna de Nelson Motta no Jornal da Globo foi sobre os mais famosos jingles de campanha política. Assunto mais do que adequeado para a época. Se você não viu, pode ver abaixo:

Aos exatos 3 minutos e 5 segundos algo me impressionou: o que eu achava que, inocentemente, era uma cantiga de roda, nada mais é que um dos mais conhecidos jingles, criado para a campanha à vice-presidência de João Goulart. Outro detalhe curioso que eu realmente não sabia é que um dia permitiu-se eleger o presidente separadamente do vice, de partidos diferentes. Que a história do Brasil é extemamente confusa e cheia de pontos nebulosos eu nunca duvidei. Desde os tempos da escola que eu entendia tudo muito bem até a República aparecer. Aí a coisa complicava de vez. Nem minha mãe sendo professora de História me ajudou a compreender a complexidade de tudo que aconteceu. Esse é mais um fato para me espantar.

Voltando ao jingle. Tentei encontrar a história dele, mas foi bem difícil. Devido ao horário e a minha pouca habilidade em buscas na rede, o que encontrei foi dito por Nelson Motta. Pouco tem-se a acrescentar. Muito da história deve ter se perdido em algum momento da ditadura.

Não encontrei a história, mas encontrei algo muito interessante. Eu não vivi a ditadura, quando nasci o regime militar estava prestes a acabar. O que restou foram os livros de Moral e Cívica que tínhamos em casa e a crise financeira que o Brasil vivia. Mas quem sou eu para dizer algo? É aqui que gostaria de compartilhar um pequeno trecho que encontrei e que fala muito bem de tudo o que foi a ditadura militar.

(…) Eu estava assistindo a um programa de tv sobre Origami. E pensei comigo mesma. Putz…Que legal! Pena que eu não aprendi a fazer nada dessas coisas no colégio. Eu só aprendi a fazer aviãozinhos, naviozinhos e bom, não precisei pronunciar o último. Sim, chapéu de soldado! Meu sangue gelou nas veias!!! AS FORÇAS ARMADAS!

Uma lâmpada se acendeu acima da minha cabeça exatamente como nos desenhos animados! Eu precisava ver com os meus próprios olhos! Fui atrás dos meus livros de infância. Encontrei o meu primeiro dicionário. O que vi lá fez o meu sangue congelar de vez! Páginas e páginas de puro ufanismo. O dicionário mostrava imagens dos objetos e uma pequena descrição deles. No máximo duas linhas. Mas quando chegava em soldado, bandeira, pátria, nação, presidente. Bom, aí a coisa pegava. Uma página inteira lindamente decorada com belos textos do tipo ‘soldado é aquele que defende a pátria’. O resto da baboseira fascista eu fiz o favor de deletar do meu cérebro. Pelo menos a parte consciente. O resto eu tenho que lutar no dia a dia para me livrar deles. Mesmo com toda a cultura que já acumulei muito dessa baba não vai sair jamais.
Tento viver com isso, fazer o quê.

Então eu percebi finalmente o que minha professora queria dizer quando nos chamava de ‘filhos da ditadura’. Ela queria dizer o quanto fomos manipulados, alienados pelos militares. O quanto nossa educação foi tendenciosa. O quanto deixamos de aprender!!! Os livros proibidos que deixamos de ler. Líamos o que as autoridades queriam que lêssemos.

Nunca tive a chance de reencontrar minha antiga professora de história. 😦
E provavelmente, nunca terei. Eu gostaria de encontrá-la um dia, talvez bem velhinha e lhe dizer uma única palavra – Obrigado!

O texto na íntegra pode ser lido no blog Vintage69.

E pensar que a ditadura já se foi, mas continuamos passando suas ideias a nosso filhos.

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