Saber ou não saber? Eis a questão

Meu carnaval está sendo ótimo. Em casa, dormindo horrores, como diz minha amiga Cah, e aproveitando para assistir tudo que posso, obviamente dentro de um limite, principalmente no que diz respeito a conteúdo. Estou colocando em dia as séries que acompanho e vendo os filmes que ainda não tive tempo de ver.

Ontem assisti Tropa de Elite 2 e O Retrato de Dorian Gray. Dois filmes muito bons que nos levam a pensar um pouco. O primeiro, nacional, nos leva a avaliar a nossa sociedade, o Brasil como um país e a luta entre política e justiça. O outro, baseado numa belíssima história de Oscar Wilde, nos leva a pensar o preço que pagamos pelas escolhas que fazemos.

Em Tropa de Elite 2, a cena que mais me chamou a atenção foi a primeira, quando Diogo Fraga faz uma palestra para um grupo de pessoas e apresenta números obviamente ilógicos, sem considerar muitos outros fatores para justificá-lo. Falar do aumento da população carcerária do Brasil sem citar o aumento da violência é algo imperdoável. Mas o problema não era o que ele falava, mas sim as pessoas que ouviam. Todas escutam atentamente a fazem cara de aceitação a tudo que é dito. Ok, é uma ficção, tem que haver uma dramatização. Mas se tratando de Tropa de Elite e Brasil, toda dramatização deve ser muito bem avaliada, porque o filme não é pura e simplesmente uma ficção. Existem muitas (muitas mesmo) pessoas que simplesmente aceitam os absurdos apresentados e não questionam, só fazem aumentar a massa de pessoas que sequer procuram estudar para entender o que é dito.

É neste ponto que entra O Retrato de Dorian Gray na minha análise. Sendo o personagem principal um jovem recém milionário e claramente fraco de opiniões, é induzido a acreditar que tudo pode e que é inatingível. Isso, obviamente, com a ajuda de um “recurso”, seu autorretrato. Ele se transforma naquilo que a sociedade hipocritamente rejeita, naquilo que todos gostariam de ser, mas que ninguém tem coragem de assumir. O problema é que tudo tem um preço. Se a sua juventude foi preservada, sua alma, na história simbolizada pelo autorretrato, é despedaçada, apodrecida a cada ano que se passa.

Nos dois filmes vemos pessoas fracas, que aceitam aquilo que é dito como verdade absoluta, não contestam e não são capazes de formar suas próprias opiniões. Ou pior, até podem formá-las, mas são fracos ao ponto de não defendê-las. Não acredito que Diogo Fraga e nem Lord Henry Wotton sejam antagonistas em suas histórias. Eles fazem o papel que lhes cabem, fazer as pessoas pensarem sobre suas atitudes e seus comportamentos diante de temas polêmicos. O que elas fazem com o que lhes é dito é que é o problema.

Somos humanos, mas agimos como qualquer animal. Para vivermos juntos em um ambiente sociável é preciso que haja um consenso nas regras, respeito pelo que foi definido e líderes para guiar os mais fracos. O que seria de nós se todos fossem iguais, todos quisessem ser líderes? Ou se todos quisessem ser guiados, quem assumiria o comando? O que seria da sociedade se todos quisessem a mesma coisa?

As pessoas são diferentes, ainda bem, o mundo seria muito chato se todos fossem iguais. Acompanhar uma tendência ou seguir um determinado estilo para fazer parte de um grupo é justificável. O que não dá para justificar é a pessoa não ter coragem de mudar ou questionar aquilo que por algum motivo lhe é imposto. Leis são feitas para ser seguidas, mas também para serem questionadas. Por que existem? O que a levou a ser criada? Quem não aprende a questionar vive à mercê dos que comandam.

Enfim, uma discussão muito difícil de se chegar a um fim. Às vezes nem eu mesma sei dizer qual a melhor opção. Se John Lennon estava certo quando disse que “A ignorância é uma espécie de bênção. Se você não sabe, não existe dor.” (agradecimento ao amigo Edson Garrido), então tudo que disse pode ser para alguns apenas tolices. Mas para quem chegou a um determinado nível de conhecimento (e eu ainda preciso comer muito feijão para chegar lá), voltar atrás é impossível.

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