Divagações sobre a velhice e a morte

Pensamentos sobre a velhice andam me rondando. Não que eu ache que estou ficando velha, mesmo prestes a encostar na casa dos trinta. Tenho muita vida pela frente, ou espero ter, e faço planos para ela.

O que me faz pensar nisso é perceber que chega uma certa idade que não podemos mais ignorar que em breve perderemos pessoas queridas, com mais frequência, cada vez mais próximas.

Quando se é criança, a morte não é tão dolorida. Pouco se conviveu com a pessoa e mal sabemos sobre os sentimentos. Os anos passam e cada dia pesa mais na despedida.

Meus avós paternos eu praticamente não conheci. Lembro-me vagamente do meu avô e o pouco que convivi com a minha avó já muito doente, não foi o suficiente para criar laços afetivos profundos. Em compensação, perdi meu avô materno há cinco anos. Passei os três primeiros sofrendo muito, era uma pessoa querida, presente em minha vida. Não achava que um dia aquela dor passaria, mas ela passa. Demora, mas passa.

Tenho hoje ainda minha avó querida. Uma pessoa carinhosa, amorosa com seus netos. Mesmo com seus problemas, jamais deixou de nos amar com toda a intensidade do amor de uma avó. Não sei bem como explicar minha relação com ela, mas é especial e ela sabe disso. Quando penso no que ela representa para mim, percebo que sou uma pessoa muito feliz, porque pude ter uma relação especial com ela, tive e ainda tenho tempo para aproveitar o que ela tem a me oferecer.

Se enquanto era criança, ela podia me levar para passeios, visitas a parentes e amigos e fazer minhas vontades de neta, hoje aprendo a viver a vida respeitando cada vez mais os mais velhos, dando valor na experiência de vida e sabendo que não é eterna. Não esta, se é que o caro leitor acredita em outra vida.

Mas dói pensar que os dias estão contados, que se aproxima cada vez mais o momento tão temido.

Para completar todo este sentimento, estou lendo um livro que fala sobre o que?? A velhice. Um ótimo livro, diga-se de passagem. Espero em breve fazer uma resenha dele e postar aqui.

Separei para postar aqui uma passagem deste livro que me emocionou muito e que ao meu ver nos ajuda, os jovens, a entender o que os idosos sentem e que provavelmente sentiremos.

andar pelo cemitério é a última coisa de velho a entrar-nos na cabeça. é o que verdadeiramente nos torna velhos sem regresso, diferente dos outros humanos. afeiçoamo-nos à morte. é como se fôssemos cortejando a confiança dessa desconhecida, para nos encantarmos, quem sabe. ou para percebermos como lhe podemos escapar ainda. coisas diversas e complementares, porque os nossos sentimentos vão oscilando entre uma necessidade de ultrapassar o impasse do fim da vida, e o trágico de que tudo isso se reveste. a coragem tem falhas sérias aqui e acolá. e nós, que não somos de modo algum feitos de ferro, falhamos talvez demasiado, o que nem por isso nos torna covardes, apenas os mesmos de sempre. os mesmos vulneráveis e atordoados seres humanos de sempre. tanta cultura e tanta fartura e ao pé da morte a igualdade frustrante e a mesma ciência. sabemos todos rigorosamente uma ignorância semelhante. e assim não há quem aponte um caminho mais fácil, mais interessante das vistas, mais proveitoso, mais acompanhado, um caminho disparatado que é partir sem na verdade se sair do lugar.

Valter Hugo Mãe – A Máquina de Fazer Espanhóis, p. 101-102

No final das contas há uma confusão dentro de mim, pois sei que a vida tem um limite, deve ter, pois o corpo passa a ser um fardo para as mentes sãs. E a mente precisa de descanso.

Mas é difícil para quem fica.

Difícil, mas passa.

P. Peço desculpas ao meu caro leitor se houver erros no texto. Acredito que haja vários, mas devido ao tema delicado, resolvi não fazer uma revisão, caso a fizesse seria bem capaz de remover quase tudo que escrevi ou até deste post não sair. =)

Em tempo: a citação foi feita na íntegra, exatamente como está no livro, portanto não há erros de grafia.

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