Resenha: O Seminarista

Tenho repensado a forma de fazer minhas resenhas. A partir de agora vou tentar analisar separadamente os vários aspectos da obra, tais como: enredo, estilo do autor, tradução – quando houver -, capa e qualidade da impressão. Obviamente que estou falando de obras impressas, as que leio em formato digital não dá para falar de todos estes quesitos, mas acredito que este novo formato possa ser mais útil, uma vez que o livro não é composto somente de uma história e que de uma edição para outra muda-se muita coisa.

Capa do Livro O SeminaristaPois bem, a obra escolhida desta vez foi “O Seminarista”, de Rubem Fonseca. Tenho que admitir aqui que até então nunca tinha ouvido falar neste autor. “Minerin de Giz di Fora”, formado em Direito pela UFRJ, trabalhou como policial até se licenciar para se dedicar aos estudos e, posteriormente, à literatura, escrevendo, além de livros, roteiros cinematográficos.

Sua obras são conhecidas por misturar fatos históricos à ficção. Adota um estilo direto, seco, áspero e sem rodeios para falar de violência, sensualidade e solidão, o que fica bem claro já na primeira leitura. Com “O Seminarista” não é diferente.

O protagonista se chama José, ex-seminarista que gosta de poesia, vinho e rock. Considera-se um homem simples, a começar pelo nome, acredita que a mãe já pressentira isto e, portanto, deu-lhe um nome comum.

O que não é simples, nem comum na vida de José é o seu trabalho: assassinato por encomenda. Isso mesmo, ele ganha a vida como matador de aluguel. Apesar dos riscos da profissão, ele conseguiu não chamar a atenção durante anos e, por isso, é considerado um dos melhores. Mas ele decide se aposentar e viver sossegado, se é que é possível que seja mais. E é nesse ponto que a história começa.

Comprei o livro numa promoção e confesso que pelo preço não dei muito crédito. Fui mais pelas indicações que li na internet, nem me dei ao trabalho de ler a sinopse. O título me chamou a atenção, mas eu não entendia o por quê. Até que recentemente li a resenha do André Gazola (do Lendo.org) e descobrir o motivo: O Seminarista me lembra O Ateneu, O Mulato, Os Sertões e tantas outras obras literárias brasileiras largamente recomendadas no ensino médio e cursinhos pré-vestibulares. Ledo engano.

Foi um bom engano. A narrativa é em primeira pessoa, então tudo que é contado é do ponto de vista de José. Um estilo que particularmente não aprecio, mas neste caso foi uma escolha acertada. Me senti cada vez mais dentro da cabeça do protagonista, vivendo seus receios e angústias. Tudo parece ter vida, cheguei a imaginar o José na minha frente contando sua história. Em alguns momentos, parecia que ele estava me levando para um passeio, revivendo suas memórias, tipo aqueles filmes de ficção científica, onde uma pessoa entra na mente da outra e elas caminham pelas suas lembranças.

Um trecho da história:

Quando disse ao Despachante que não ia mais fazer qualquer serviço para ele, o cara ficou ainda mais branco do que era.

“Você não pode fazer isso.”

“Posso.”

“Não tome atitudes impulsivas, você vai se prejudicar.”

“Perdi o estímulo.”

“Você sempre gostou do seu trabalho…”

“Como no lindo soneto do Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… Chega uma época em que procuramos outros caminhos, entendeu? O Sêneca tem uma boa frase sobre isso, alia tentanda est via.

“Pense bem, no nosso métier as coisas não mudam. Temos responsabilidades…”

“Eu pensei bem.”

Estendi a mão para o Despachante Ele hesitou por um momento, mas apertamos as mãos em despedida. Ele continuou pálido.”

Obviamente que o trecho não contém palavras de baixo calão, que é frequente. José é real e é isso que torna a história mais interessante.

Dos livros que li em 2013, este talvez seja o que mais me impressionou, tanto pelo estilo do autor quanto pela história. Mesmo hoje, depois de alguns meses, quando penso nela, sinto a mesma ansiedade,  a mesma tensão e tantos outros sentimentos que José sentia, ou deveria sentir.

Com relação à capa, percebo que foi uma escolha acertada, é totalmente compatível com a história e com o protagonista. Até neste ponto a simplicidade está a favor do livro.

O meu exemplar é a primeira edição publicada pela Editora Agir (grupo Ediouro), tem 179 páginas. As folhas são em papel pólen, o que dá uma textura diferente, mas uma leveza que deixa o livro bom de ler.

RUBEM FONSECA: VIOLENTO, ERÓTICO E, SOBRETUDO, SOLITÁRIO — Fernanda Cardoso

Depois deste livro, posso dizer que Rubem Fonseca entrou na lista dos meus escritores favoritos e já estou ansiosa para ler o resto de suas obras. Também, o que dizer de alguém que ganhou nada mais que cinco Prêmios Jabuti e o Prêmio Camões.

Espero que, com este texto, eu tenha conseguido me redimir dos anos ignorando este fantástico escritor.

Acho que já dá para adivinhar a minha nota, né? Nota 5, sem questionamentos.

Um comentário em “Resenha: O Seminarista”

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