Reflexões para o fim de 2016

É curioso como às vezes, num estalo, encontramos as justificativas para os comportamentos que temos. Hoje me dei conta do motivo de estar escrevendo tão pouco no blog. De repente ficou tão claro, que fica difícil negar.

Ando tão cansada de discussões sem sentido, de “dar murro em ponta de faca”, de tentar explicar para as pessoas que o que é certo é certo, mesmo que ninguém esteja vendo, de tentar fazer as pessoas um pouco mais esclarecidas.

Há um problema recorrente na cidade onde moro, que também acontece em grandes cidades, mas por motivos distintos. Temos umas das melhores escolas públicas do estado e a corrida por vagas é enorme e muito complicada, ao ponto de haver necessidade de interferência policial. Este ano foi a vez de um conhecido buscar vaga para o filho. Dentre tantos absurdos ouvidos, fica difícil defender qualquer uma das partes. Mas vamos lá.

Minha filha estuda nesta escola. Antes, ela frequentava uma pré-escola particular. No ato da matrícula, eu e meu marido questionamos se não estaríamos “tirando” a vaga de outra criança, pelo fato de outros pais terem reclamado que havia um favorecimento pelo fato dela ter estudado na tal pré-escola. Afinal, se não conseguíssemos vaga ali, havia ainda uma segunda opção pública, ou partiríamos para as escolas privadas. A responsável, muito consciente da nossa preocupação, buscou sobre sua mesa um papel que listava os critérios para preenchimento das vagas. Minha filha, lembro-me muito bem, se encaixava perfeitamente nos três primeiros critérios. A pessoa que nos atendeu, então, disse que, se tivéssemos condições de pagar uma escola particular, que seria bom para outros que não tinham, pois abriria mais uma vaga, já que a da minha filha estava garantida. Não era o nosso caso. Ela foi para a escola pública.

Porém, entra ano, sai ano, o que vemos são pais excessivamente obcecados por terem seus filhos matriculados na mesma escola, seja porque é a melhor dentre as públicas, ou porque os outros coleguinhas também vão para lá. O fato é que muitos não medem esforços para tentar se encaixar no critério, seja buscando o famoso “QI”, tão comum em cidades pequenas, ou até mesmo mentindo o endereço residencial. E fazem isso porque acham que estão sendo passados para trás. Afinal, se eles não fizerem, outros farão. Em contrapartida, não descarto a ideia do favorecimento, seja de um parente, um vizinho, ou uma “ordem superior” para conceder uma vaga para alguém que talvez não se encaixe tão bem nos critérios.

E a minha indignação não para aí. Por mais que tente, não é possível fazer com que essas pessoas entendam que se outros erram ou tentam burlar o sistema, isto não lhes dá o direito de agirem da mesma forma. Todo mundo é correto até que seu desejo esteja em risco, ainda mais se forem relacionados a seus filhos.

A ideia deste post era, inicialmente, falar sobre certo e errado. Já havia até começado a pensar nas palavras e frases de efeito que usaria. Até me desanimar, porque nada do que for escrito aqui fará a cabeça dessas pessoas mudarem. Meu objetivo não é julgar ninguém, apenas mostrar minha descrença no ser humano.

Somos egoístas, egocêntricos e narcisistas. A sociedade nos obriga a ocultar tais comportamentos, mas há momentos em que fica evidente nosso fracasso nessa tarefa. Basta mexer em nosso ponto fraco. Redes sociais só ampliam nossa incapacidade, queremos sempre mostrar que a nossa casa é a melhor, nossos amigos os mais legais, que fizemos a viagem mais divertida. Queremos, sim, o melhor para nossos filhos, mas pouco nos importamos com a necessidade alheia.

E é desse mimimi que estou cansada. Cansei das redes sociais, cansei das discussões. Ando dando uma boiada para sair delas..

Pegando o gancho, já que provavelmente este será o último artigo do ano e que estou lendo “A Estratégia do Oceano Azul” (W. Chan Kin, Renée Mauborgne), fica aqui a proposta dos autores para se atingir o Oceano Azul na vida: “eliminar, reduzir, elevar, criar”. Espero que no próximo ano eu consiga eliminar estas discussões sem fundamento, reduzir o número de palpites errados na minha vida, elevar o nível das discussões e criar bons momentos para reflexão de assuntos que valham a pena. E desejo, do fundo do meu coração, que as pessoas sejam menos obtusas e pensem mais no próximo.

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Resenha: Chatô, o Rei do Brasil

Falar de História é sempre bom. Mas preciso confessar, mesmo sendo filha de professora, nunca gostei muito. Provavelmente pelo mesmo motivo que a maioria: a forma de expor os fatos. Nem sempre os professores estão preparados para transformar as páginas dos livros em conteúdo interessante para o aluno. Ou ainda, a escolha do material didático não é satisfatória, talvez pela ineficiência de quem avalia, ou pela falta de opções. O público infanto-juvenil precisa ser tratado de uma forma diferenciada e poucos autores possuem essa capacidade.

Dos autores biográficos, considero Laurentino Gomes e Fernando Morais exemplos a serem seguidos. São autores que apresentam os fatos e contemporizam as análises. Do primeiro já havia lido 1808, 1822 e a edição juvenil de 1889. De Morais, nada tinha passado pelas minhas mãos, mas a lista de desejos está repleta das suas obras. É com muito prazer que escrevo uma resenha de uma obra de Fernando Morais: Chatô.

História

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, paraibano de nascença e pernambucano de coração, formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, foi jornalista, empresário, político e uma das figuras públicas mais influentes entre as décadas de 1940 e 1960.

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Sua vida pessoal e profissional nunca foram tranquilas. Há sempre uma história inusitada a se contar. Casado apenas uma vez, teve três filhos, mas apenas um do casamento oficial. Da recusa em reconhecer um filho ao sequestro da filha, o relacionamento entre pai e filhos sempre foi conturbado. Além disso, tinha forte queda por mulheres e, dizem alguns, fazia pouca distinção, o que lhe trouxe pequenos inconvenientes.

Figura controversa, muitas vezes acusado de falta de ética, não media esforços para conseguir o que queria. Dotado de grande ambição e de uma visão de negócio aguçada, diziam que tudo que tocava virava ouro. Muitos de seus feitos foram conquistados graças a doações ou financiamentos. Pouco saía realmente do seu bolso. Foi capaz de construir um grande império das comunicações, chamado “Diário Associados”, mas também de contrair grandes dívidas. Devido ao seu prestígio ou ao seu lápis afiado, quase nenhuma chegava a ser cobrada.

Na política, apoiava aquele que lhe proporcionasse o que queria. Era capaz de eleger um presidente num dia e no outro depô-lo. Apoiou o amigo Getúlio Vargas nas eleições de 1930, mas logo mudou de opinião, passando a escrever artigos contra seu governo, contribuindo, assim, para o crescimento da impopularidade do governo vigente. Seu apoio e, consequentemente, de seus jornais, era disputado por quem quisesse governar, seja o país, o estado ou uma cidade. Aquele que fosse contra Chatô pouca chance tinha de se eleger. Seu poder era tamanho, que foi capaz de fazer Vargas promulgar uma lei que lhe garantisse a guarda da filha. Foi eleito duas vezes senador em eleições escandalosamente fraudulentas.

Nos negócios agia com a mesma avidez. Quando encontrava alguém que fizesse oposição ao seu comportamento ou opinião, ou ainda que estivesse tentando tomar seu espaço na mídia, tratava logo de desmerecer seu oponente. Era capaz de bisbilhotar a vida pessoal do opositor até encontrar algum “podre” que pudesse ser explorado. Quando não havia, era sua imaginação que entrava em ação. Tal comportamento lhe rendeu muito inimigos, entre eles Rui Barbosa e Rubem Braga. Se temos uma imprensa como a nossa, é graças a Chateaubriand.

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Duas áreas tiveram forte desenvolvimento no país graças a ele: as telecomunicações e a aviação civil. Ávido por novidades tecnológicas, quando era apresentado a uma, não media esforços para trazê-la ao país. Foi assim com o rádio e a televisão. Foi pioneiro nas transmissões através da criação da TV Tupi. Uma terceira contribuição de Chatô para o Brasil encontra-se nas Artes, com a criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que leva o seu nome.

Faleceu em abril de 1978, aos 75 anos, devido a complicações de uma trombose, doença pela qual lutou por oito anos e que o tornou paraplégico, com dificuldade para falar e escrever. Mesmo assim, continuou publicando artigos até os últimos dias de vida. Deixou de herança um império já se esfacelando.

Narrativa

Fernando Morais apresenta a vida de Chateaubriand desde o nascimento até sua morte. São tantos detalhes e tantos fatos curiosos, que fica difícil resumir. Nomes conhecidos são apresentados a todo momento. Escritores, artistas, jornalistas, compositores e até nomes tão presentes no cenário político atual fazem parte da história. Morais é preciso ao citar fatos e pessoas, aprofundando quando é relevante. O livro é gostoso de ler, uma biografia disfarçada de romance. A vida de Chatô daria uma novela, mas ainda não consegui classificá-la, fiquei na dúvida se seria um drama ou uma comédia.

ATENÇÃO! Se você viu o filme “Chatô, o Rei do Brasil”, esqueça tudo e leia este livro. Você terá uma visão menos fantasiosa dessa figura tão icônica que foi Chateaubriand.

Edição

Esse foi um dos livros que estavam na estante da faculdade e que me chamavam toda vez. Ele é grande, são 732 páginas, mas que são consumidas com grande prazer. A edição que li é a segunda, publicada em 1994. Este ano, devido ao lançamento do filme, uma nova edição foi publicada pela Companhia das Letras.

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1ª Edição: 1994 (Fonte: internet)

Autor

Foi a primeira biografia nacional que li. E posso me considerar a mais nova fã de Fernando Morais. Sua narrativa é simples e fluida, sem termos rebuscados. A sequência dos fatos e a profundidade da narrativa é na medida certa. Ao citar um colega de trabalho, por exemplo, aprofunda-se nos detalhes apenas se for importante para entender o nível do relacionamento entre eles ou que justifique a história. O foco é, principalmente, nos fatos. Descrições físicas ou do ambiente são dadas apenas se forem relevantes.

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Fonte: internet

Numa entrevista à Carta Capital no início deste ano, Morais fala da contribuição do estilo jornalístico de Chateaubriand para as mídias atuais. Também vale a leitura.

Fonte

  • Morais, F. Chatô, o Rei do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. ISBN: 8571643962
  • Wikipedia