Resenha: O Jeito Macintosh

Se eu tinha pretensão de manter as leituras em dia enquanto durassem os estudos de engenharia, posso afirmar, após passada a metade do curso, que eu estava sonhando acordada. A missão de ler pelo menos um livro por mês foi por água abaixo. Mas sigo firme na meta e tento tirar o atraso quando dá, mais precisamente nas férias (dos estudos, porque o trabalho continua).

O escolhido da vez foi “O Jeito Macintosh”, de Guy Kawasaki. Este livro foi um presente do namorido de no dia dos namorados (mas recebido com antecedência, porque ele não consegue esperar).

O livro foi escrito em 1989, são vinte e sete oito* anos separando a escrita do livro do momento desta resenha. A Apple não é mais a mesma, muita coisa mudou de lá para cá. O mercado mudou. Nesses quase trinta anos, a equipe é praticamente outra. Mas o que impressiona é que as técnicas listadas por Kawasaki, adotadas pela empresa em seu posicionamento de mercado, são mais atuais do que nunca.

Essa é uma máquina mortífera, listada na Fortune 500, que existe para aumentar a riqueza de seus acionistas. Se você pode ajudar os acionistas, talvez até consiga ajudar a si mesmo.

É uma visão de mercado que pouco vemos no Brasil e quando adotada, é mal vista por ser tipicamente capitalista. Preza-se pelos resultados, pela competência e em nenhum momento ouve-se falar de protecionismo. Caso clássico foi a demissão de Steve Jobs da própria empresa, da qual era fundador.

Há uma frase muito interessante que é praticamente o cerne da história, citada em diversas passagens. Kawasaki diz que o jeito Macintosh é “fazer a coisa certa e fazer as coisas da maneira certa”. A princípio, parece um pleonasmo, mas ela vai sendo aplicada e explicada em cada capítulo, reservado a tratar de um tópico específico (de vendas a pós vendas, qualidade do produto, marketing, entre outros). No final, é fácil entender o que ele quis dizer e tudo começa a fazer sentido.

É um livro escrito por um engenheiro, numa época em que as edições não eram tão bem trabalhadas. A diagramação é ruim, os textos remetem à época e muitas piadas deixam de ser entendidas por quem é mais novo (meu caso). O marido entendeu a maioria delas, uma vez que ele é expert no que diz respeito à história da Apple. Porém, não posso desmerecer a genialidade de uma equipe que inventou a administração moderna.

Por morar em uma cidade que respira empreendedorismo, estou em contato permanente com profissionais do ramo, seja aquele que empreende ou que ensina a empreender. O que vejo é que, apesar da nossa cultura ainda cultivar o protecionismo estatal, existem pessoas que desafiam a lógica e se jogam no mercado, colocando em prática seus sonhos e suas ideias. Ou pelo menos tentando.

Não é uma tarefa fácil, tenho amigos empresários que frequentemente cogitam largar tudo. A burocracia para desenvolver, homologar e vender um produto é tamanha, que o esforço para colocar o produto no mercado muitas vezes não compensa o lucro. Entre pagamento de funcionários, impostos (ah, como sofro com essa maldita legislação fiscal!) e competitividade, há sempre que se pesar responsabilidade x liberdade.

No Brasil, dificilmente uma empresa com o porte da Apple conseguiria se sustentar sem apoio do governo (vide Odebrecht, OAS, Andrade Gutierres, entre outras). Mas por ser independente foi que se tornou uma empresa revolucionária.

Há duas coisas a se almejar na vida: conseguir o que se quer, e saber apreciá-lo. Apenas os mais sábios entre os homens alcançam a segunda.

Logan Pearsall Smith

  • Pra variar, a resenha foi escrita em 2016 e só agora concluída.
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Resenha: O Circo Mecânico Tresaulti

Ah! Como é bom voltar a resenhar! Melhor ainda é finalizar um livro. E daqueles que te deixam um sentimento esquisito.

Explico.

O escolhido foi um presente de Natal. Paixão à primeira vista. Porque, quem não se abala por esta capa? É daqueles livros que você nunca ouviu falar, mas olha para ele e pensa: pode uma capa tão linda assim conter uma história que valha a pena?

O livro

O Circo Mecânico Tresaulti, cujo título original é “Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti”, foi escrito por Genevieve Valentine (2011) e traduzida ao português por Dalton Caldas (2013). Minha edição é a capa dura em alto relevo, Edição Limitada da DarkSide, de 2016. Além do ótimo trabalho de capa, contém ilustrações interiores (Wesley Rodrigues, 2013) e vem com fita marcadora de página e um marcador extra de formato bem diferente dos comuns. Um verdadeiro regalo!

A dificuldade maior é o tema: circo. Quem me conhece sabe que não sou muito fã. Só que a curiosidade foi maior que a falta de interesse.

A sinopse oficial diz (sem spoilers):

Respeitável público, o Circo voltou!
Num mundo pós-apocalíptico, onde as pessoas não tem mais acesso à tecnologias de ponta, uma caravana circense leva esperança por onde passa. Os artistas são sobreviventes de guerra, que tiveram seus corpos mutilados reconstruídos com complexas estruturas mecânicas.

Ao começar a ler, tive a sensação de estar entrando no mundo de Stephen King, personagens estranhos, tempos esquisitos, histórias sinistras, que invocam a imaginação e te mantêm em suspense; porém mais romantizado.

As narrativas são curtas e vagas, pequenos parágrafos. Às vezes em primeira pessoa, apresentando a visão de Little George, o único que se mostra desta forma; a maioria das vezes em terceira pessoa, mesmo quando do ponto de vista de outra personagem. Quando, em alguns momentos, apenas duas personagens se interagem, a autora os trata apenas de “ele” e “ela”, o que pode causar uma pequena confusão se a leitura for feita displicentemente.

Confesso que fiquei desanimada no início, demorei a entender qual era o sentido da história e me senti enfadada. Pesquisei um pouco e percebi que outras pessoas tiveram a mesma sensação e que o estilo da autora incomodou alguns. Tanto que a obra não é uma unanimidade. Nenhuma é.

Fato que persisti e não me arrependi. Quando percebi, estava ansiosa por mais um capítulo. Mesmo sendo pequeno, apenas 320 páginas, o que daria para ler em um final de semana, ainda mais com feriados, estava em período de provas. O jeito foi aproveitar para ler pequenos trechos antes de dormir. E assim, a ansiedade só aumentou.

Sinto-me atraída pela complexidade e o sofrimento das personagens. Fui arrebatada pela necessidade de saber de onde vieram e para onde estariam seus integrantes. Difícil dizer mais sem revelar a história.

Ao fim, ficou a vontade de relê-lo, agora compreendendo todo o estilo desde o começo. Estou aqui, olhando para o livro e pensando se seria melhor aguardar um pouco mais, até que esse sentimento confuso passe, ou aproveitá-lo. É tão difícil decidir.

A autora

Genevieve Valentine, americana nascida em 1981, é escritora de ficção científica e fantasia. Seu primeiro romance foi “O Circo Mecânico Tresaulti”, vencedor do Crawford Award 2012 e indicado ao Prêmio Nebula. Dentre os diversos trabalhos realizados, destaca-se como escritora de “Catwooman” para a DC Comics.

Pesquisando um pouco mais, encontrei esta animação tão fantástica quanto a bela edição da DarkSide.

Animação por DarkSide Books

Minha nota? Pelo início um pouco confuso:4 estrelas

Reflexão da vida

Conversa com a filha:

Filha: Mãe, a fulana me convidou para a festa dela. Posso ir?
Eu: Quem é a fulana?
Filha: É aquela (…). Lembra?
Eu: Mais ou menos. Onde vai ser a festa?
Filha: (Endereço).
Eu: Como vai ser a festa? Almoço? Até que horas? Quem vai te levar? Tem que levar alguma coisa? Precisa combinar com a sua tia (…).

E foi através desta conversa que constatei algo que já havia me chamado a atenção um pouco mais cedo: nós, adultos, temos uma tendência a complicar as coisas. O que não é novidade para ninguém.

Na cabeça da minha filha é uma festa e ponto. Ela compra o presente e vai. Na minha é a preocupação com o lugar, com as pessoas que estarão lá, em saber a hora que começa e quando termina, entre uma infinidade de outras coisas. Me senti uma legítima mãe.

Outra situação me alertou para isso. Existe uma imagem circulou pelo Linkedin que é um pastel ao lado de um organograma. Sabemos que melhorar processo para obter melhores resultados é muito importante. Mas até que ponto burocratizar uma rotina simples traz bons resultados? Até que ponto vale criar um novo controle para o produto da sua empresa pensando que no futuro ele pode ser importante?

Seja na vida profissional ou na pessoal, temos sempre que fazer uma análise das nossas atitudes, verificando se os resultados estão sendo atingidos e o que pode ser feito para melhorar. A frequência pode variar, mas é importante passar por esse processo. Obviamente, é necessário que cada um saiba o que quer para analisar como chegar lá. Mas o fim nem sempre justifica os meios.

Uma regra geral para programadores e que sou totalmente a favor diz que quando um problema está complicado, há duas explicações: ou você não entendeu muito bem, ou a solução proposta está errada. Geralmente é a soma das duas, uma vez que a probabilidade de acertar na solução sem entender o problema é mínima.

E o que isso tem a ver com a conversa inicial com a minha filha?

Com a vida corrida dos últimos anos, muita coisa eu deixei de lado, seja nos cuidados com a família ou comigo mesma, seja na relação com meus amigos. Fiquei extremamente balançada quando uma conhecida perguntou a mim e a uma amiga quanto tempo não nos víamos. A resposta foi alguns meses, mesmo ela morando a um quarteirão de mim (pois é!). A desculpa é sempre a falta de tempo. Mas com o que eu ando gastando meu tempo?

A análise prévia é de que estou fazendo a coisa certa, mas fazendo as coisas de maneira errada. Parece complicado, né? Só parece. Essa é uma frase que li no livro “O Jeito Macintosh”, que em breve espero finalizar e fazer a resenha. A frase original é “fazer a coisa certa e fazer as coisas da maneira certa”. À primeira vista parece ser a mesma coisa, mas não é. Vou discutir isso um pouco mais na resenha (que deveria ter saído antes das minhas férias acabarem, mas o semestre já começou fervendo).

Para atingir alguns resultados, dei prioridades a coisas que não deveria e releguei a segundo plano o que seria mais importante. Seja na área financeira ou na emocional, tem muita coisa que estou deixando para depois, pensando que não é o momento certo.

O resultado disso é que não estou feliz. Então está errado. Se a vida é para ser vivida, o que estou esperando? Fazer um esforço para economizar, cortando o que não é essencial, não quer dizer que não possa, uma vez por semana, convidar um amigo e beber um vinho em casa, fazer uma comidinha simples e gostosa (nesse frio, sou adepta dos caldos). Por que não pegar a bicicleta nova que o marido me deu e fazer um passeio semanal, ir até aquele lugar no mapa que eu quero tanto conhecer? Por que não começar a academia agora, mesmo não sendo fã, para aproveitar o horário flexível, enquanto não consigo ajustar minha agenda e fazer o Pilates que tanto desejo?

São perguntas que ando me fazendo que talvez sejam o caminho para resolver uma série de problemas que estão me incomodando, mas que deixo para depois, pois nunca sei qual a melhor solução. Chegou a hora de aplicar na minha vida pessoal as técnicas de gerenciamento que venho aprendendo ao longo dos anos no trabalho. E o mais importante: documentar. Aquilo que está escrito não pode ser negado. E acredito que uma vez no papel, passará a ser uma missão. E missão dada é missão cumprida. Talvez por isso até hoje eu não tenha cumprido a promessa que faço todo ano de escrever as metas, e que seja papel de verdade, para dar a sensação de um contrato assinado.

A intenção é descomplicar aquilo que a mente insiste em complicar. Parar de arrumar desculpas para não fazer certas coisas porque estou cansada de tanto trabalhar e estudar. Dá sim para me divertir, fazer algo que goste, sem ter que gastar muito ou tomar tempo demais. É saber aproveitar o preparo de um alimento muito mais do que comer, de apreciar uma fatia de bolo sem ter que me preocupar com calorias. É reservar uma ou duas horas da semana e fazer um passeio, a pé ou de bicicleta. É ver gente, conversar, discutir boas ideias. Curtir os momentos em família, enquanto descanso de uma semana estressante, aproveitando para cuidar de quem é especial. Dá para fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, sabendo extrair o melhor de tudo.

Preciso parar de ser workaholic e me apreciar mais no espelho. E eliminar de vez a procrastinação, minha até então acompanhante indesejada.

Consulta SQL usando tabela dinâmica

Hoje quero falar sobre tecnologia, mas especificamente sobre consultas a banco de dados utilizando a linguagem SQL.

Durante meu curso de Sistemas de Informação, na disciplina de Banco de Dados, tive um professor que era extremamente entusiasta dessa ferramenta, não sem razão. É possível fazer muita coisa com ela, sabendo usar corretamente. A maioria dos que usam SQL não passa dos SELECTs, INNER JOINs, LEFT JOINs e assim por diante, mas ela oferece muito mais do que isso. Uma analogia que me satisfaz é dizer que SQL compara-se a um canivete suíço, se você não sabe usar, vai utilizá-lo somente para cortar outros objetos, mas se explorá-lo um pouco mais, vai descobrir que ele só não fala porque precisaria de baterias :D.

Vamos imaginar a seguinte situação: você tem uma tabela com todas as vendas realizadas pela empresa, com a seguinte disposição (vamos chamá-la de ITEM_VENDA):

---------------------------------------------------
| Produto | Quantidade | Valor       | Data       |
---------------------------------------------------
| P1      |       1,00 |      350,00 | 05/01/2017 |
| P2      |       1,00 |     1200,00 | 09/01/2017 |
| P1      |       3,00 |      900,00 | 25/01/2017 |
| P1      |       2,00 |      500,00 | 01/02/2017 |
| P1      |       5,00 |     1300,00 | 04/02/2017 |
| P2      |       3,00 |     3000,00 | 04/02/2017 |
| P2      |       3,00 |     2900,00 | 16/02/2017 |
| P2      |       1,00 |     1100,00 | 17/02/2017 |
| P2      |      10,00 |    10000,00 | 20/02/2017 |
---------------------------------------------------

Temos dois produtos (P1 e P2) que foram vendidos nos dois primeiros meses de 2017, com valores distintos. O gerente de vendas precisa saber quanto foi vendido de cada produto em cada mês do ano, para fazer uma comparação. A estrutura do relatório deverá ser:

-----------------------------------------------------------
| Produto | Quant_Jan | Valor_Jan | Quant_Fev | Valor_Fev |
-----------------------------------------------------------

Existem diversas formas de montar o relatório, mas a que mais me agrada é a utilização de tabelas dinâmicas, que são criadas em tempo de execução. Para o Microsofr SQL Server, o script seria:

WITH ITEM_JAN AS (
 SELECT Produto, SUM(Quantidade) AS Quant_Jan, SUM(Valor) AS Valor_Jan
 FROM ITEM_VENDA
 WHERE Month(Data) = 1
 GROUP BY Produto
), ITEM_FEV AS (
 SELECT Produto, SUM(Quantidade) AS Quant_Fev, SUM(Valor) AS Valor_Fev
 FROM ITEM_VENDA
 WHERE Month(Data) = 2
 GROUP BY Produto
)

SELECT ITEM_JAN.Produto, Quant_Jan, Valor_Jan, Quant_Fev, Valor_Fev
FROM ITEM_JAN
 INNER JOIN ITEM_FEV ON ITEM_JAN.Produto = ITEM_FEV.Produto
ORDER BY ITEM_JAN.Produto

O resultado da consulta seria:

-----------------------------------------------------------
| Produto | Quant_Jan | Valor_Jan | Quant_Fev | Valor_Fev |
-----------------------------------------------------------
| P1      |      4,00 |   1250,00 |      7,00 |   1800,00 |
| P2      |      1,00 |   1200,00 |     17,00 |  17000,00 |
-----------------------------------------------------------

Explicando resumidamente, o que fiz foi criar duas tabelas (ITEM_JAN e ITEM_FEV) dinamicamente, ou seja, elas não existem no banco de dados, apenas na memória, enquanto o script está sendo executado. Porém, ao construir a string, o SQL Management Studio interpreta como se as tabelas realmente existissem, apresentando-as na lista suspensa do autocompletar.

Outro detalhe é que usei INNER JOIN, porque houve venda de todos os produtos nos dois meses selecionados. Porém, poderia ter feito com OUTER JOIN, assim, se em um determinado mês o produto P1 não tenha sido vendido e no mês seguinte foi a vez de P2 não vender, ainda assim eles seriam apresentados no relatório, com quantidade e valor NULL (também podemos fazer um tratamento para quando isto ocorrer, apresentar zero, para facilitar a manipulação).

Conclusão

Como mencionei anteriormente, não existe apenas uma forma de chegar ao mesmo resultado, depende do conhecimento e gosto do programador. Algumas opções consomem mais recursos que outros, mas podem ser mais fáceis de serem entendidas. Apenas um DBA (Database Administrator – administrador de banco de dados) poderá dizer qual é a melhor.

Bancos de dados são recursos altamente utilizados na indústria. Seria de grande utilidade que fossem introduzidos já no ensino fundamental, como forma de praticar os ensinamentos matemáticos da teoria de grupos.

Reflexões para o fim de 2016

É curioso como às vezes, num estalo, encontramos as justificativas para os comportamentos que temos. Hoje me dei conta do motivo de estar escrevendo tão pouco no blog. De repente ficou tão claro, que fica difícil negar.

Ando tão cansada de discussões sem sentido, de “dar murro em ponta de faca”, de tentar explicar para as pessoas que o que é certo é certo, mesmo que ninguém esteja vendo, de tentar fazer as pessoas um pouco mais esclarecidas.

Há um problema recorrente na cidade onde moro, que também acontece em grandes cidades, mas por motivos distintos. Temos umas das melhores escolas públicas do estado e a corrida por vagas é enorme e muito complicada, ao ponto de haver necessidade de interferência policial. Este ano foi a vez de um conhecido buscar vaga para o filho. Dentre tantos absurdos ouvidos, fica difícil defender qualquer uma das partes. Mas vamos lá.

Minha filha estuda nesta escola. Antes, ela frequentava uma pré-escola particular. No ato da matrícula, eu e meu marido questionamos se não estaríamos “tirando” a vaga de outra criança, pelo fato de outros pais terem reclamado que havia um favorecimento pelo fato dela ter estudado na tal pré-escola. Afinal, se não conseguíssemos vaga ali, havia ainda uma segunda opção pública, ou partiríamos para as escolas privadas. A responsável, muito consciente da nossa preocupação, buscou sobre sua mesa um papel que listava os critérios para preenchimento das vagas. Minha filha, lembro-me muito bem, se encaixava perfeitamente nos três primeiros critérios. A pessoa que nos atendeu, então, disse que, se tivéssemos condições de pagar uma escola particular, que seria bom para outros que não tinham, pois abriria mais uma vaga, já que a da minha filha estava garantida. Não era o nosso caso. Ela foi para a escola pública.

Porém, entra ano, sai ano, o que vemos são pais excessivamente obcecados por terem seus filhos matriculados na mesma escola, seja porque é a melhor dentre as públicas, ou porque os outros coleguinhas também vão para lá. O fato é que muitos não medem esforços para tentar se encaixar no critério, seja buscando o famoso “QI”, tão comum em cidades pequenas, ou até mesmo mentindo o endereço residencial. E fazem isso porque acham que estão sendo passados para trás. Afinal, se eles não fizerem, outros farão. Em contrapartida, não descarto a ideia do favorecimento, seja de um parente, um vizinho, ou uma “ordem superior” para conceder uma vaga para alguém que talvez não se encaixe tão bem nos critérios.

E a minha indignação não para aí. Por mais que tente, não é possível fazer com que essas pessoas entendam que se outros erram ou tentam burlar o sistema, isto não lhes dá o direito de agirem da mesma forma. Todo mundo é correto até que seu desejo esteja em risco, ainda mais se forem relacionados a seus filhos.

A ideia deste post era, inicialmente, falar sobre certo e errado. Já havia até começado a pensar nas palavras e frases de efeito que usaria. Até me desanimar, porque nada do que for escrito aqui fará a cabeça dessas pessoas mudarem. Meu objetivo não é julgar ninguém, apenas mostrar minha descrença no ser humano.

Somos egoístas, egocêntricos e narcisistas. A sociedade nos obriga a ocultar tais comportamentos, mas há momentos em que fica evidente nosso fracasso nessa tarefa. Basta mexer em nosso ponto fraco. Redes sociais só ampliam nossa incapacidade, queremos sempre mostrar que a nossa casa é a melhor, nossos amigos os mais legais, que fizemos a viagem mais divertida. Queremos, sim, o melhor para nossos filhos, mas pouco nos importamos com a necessidade alheia.

E é desse mimimi que estou cansada. Cansei das redes sociais, cansei das discussões. Ando dando uma boiada para sair delas..

Pegando o gancho, já que provavelmente este será o último artigo do ano e que estou lendo “A Estratégia do Oceano Azul” (W. Chan Kin, Renée Mauborgne), fica aqui a proposta dos autores para se atingir o Oceano Azul na vida: “eliminar, reduzir, elevar, criar”. Espero que no próximo ano eu consiga eliminar estas discussões sem fundamento, reduzir o número de palpites errados na minha vida, elevar o nível das discussões e criar bons momentos para reflexão de assuntos que valham a pena. E desejo, do fundo do meu coração, que as pessoas sejam menos obtusas e pensem mais no próximo.

Resenha: Chatô, o Rei do Brasil

Falar de História é sempre bom. Mas preciso confessar, mesmo sendo filha de professora, nunca gostei muito. Provavelmente pelo mesmo motivo que a maioria: a forma de expor os fatos. Nem sempre os professores estão preparados para transformar as páginas dos livros em conteúdo interessante para o aluno. Ou ainda, a escolha do material didático não é satisfatória, talvez pela ineficiência de quem avalia, ou pela falta de opções. O público infanto-juvenil precisa ser tratado de uma forma diferenciada e poucos autores possuem essa capacidade.

Dos autores biográficos, considero Laurentino Gomes e Fernando Morais exemplos a serem seguidos. São autores que apresentam os fatos e contemporizam as análises. Do primeiro já havia lido 1808, 1822 e a edição juvenil de 1889. De Morais, nada tinha passado pelas minhas mãos, mas a lista de desejos está repleta das suas obras. É com muito prazer que escrevo uma resenha de uma obra de Fernando Morais: Chatô.

História

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, paraibano de nascença e pernambucano de coração, formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, foi jornalista, empresário, político e uma das figuras públicas mais influentes entre as décadas de 1940 e 1960.

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Sua vida pessoal e profissional nunca foram tranquilas. Há sempre uma história inusitada a se contar. Casado apenas uma vez, teve três filhos, mas apenas um do casamento oficial. Da recusa em reconhecer um filho ao sequestro da filha, o relacionamento entre pai e filhos sempre foi conturbado. Além disso, tinha forte queda por mulheres e, dizem alguns, fazia pouca distinção, o que lhe trouxe pequenos inconvenientes.

Figura controversa, muitas vezes acusado de falta de ética, não media esforços para conseguir o que queria. Dotado de grande ambição e de uma visão de negócio aguçada, diziam que tudo que tocava virava ouro. Muitos de seus feitos foram conquistados graças a doações ou financiamentos. Pouco saía realmente do seu bolso. Foi capaz de construir um grande império das comunicações, chamado “Diário Associados”, mas também de contrair grandes dívidas. Devido ao seu prestígio ou ao seu lápis afiado, quase nenhuma chegava a ser cobrada.

Na política, apoiava aquele que lhe proporcionasse o que queria. Era capaz de eleger um presidente num dia e no outro depô-lo. Apoiou o amigo Getúlio Vargas nas eleições de 1930, mas logo mudou de opinião, passando a escrever artigos contra seu governo, contribuindo, assim, para o crescimento da impopularidade do governo vigente. Seu apoio e, consequentemente, de seus jornais, era disputado por quem quisesse governar, seja o país, o estado ou uma cidade. Aquele que fosse contra Chatô pouca chance tinha de se eleger. Seu poder era tamanho, que foi capaz de fazer Vargas promulgar uma lei que lhe garantisse a guarda da filha. Foi eleito duas vezes senador em eleições escandalosamente fraudulentas.

Nos negócios agia com a mesma avidez. Quando encontrava alguém que fizesse oposição ao seu comportamento ou opinião, ou ainda que estivesse tentando tomar seu espaço na mídia, tratava logo de desmerecer seu oponente. Era capaz de bisbilhotar a vida pessoal do opositor até encontrar algum “podre” que pudesse ser explorado. Quando não havia, era sua imaginação que entrava em ação. Tal comportamento lhe rendeu muito inimigos, entre eles Rui Barbosa e Rubem Braga. Se temos uma imprensa como a nossa, é graças a Chateaubriand.

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Duas áreas tiveram forte desenvolvimento no país graças a ele: as telecomunicações e a aviação civil. Ávido por novidades tecnológicas, quando era apresentado a uma, não media esforços para trazê-la ao país. Foi assim com o rádio e a televisão. Foi pioneiro nas transmissões através da criação da TV Tupi. Uma terceira contribuição de Chatô para o Brasil encontra-se nas Artes, com a criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que leva o seu nome.

Faleceu em abril de 1978, aos 75 anos, devido a complicações de uma trombose, doença pela qual lutou por oito anos e que o tornou paraplégico, com dificuldade para falar e escrever. Mesmo assim, continuou publicando artigos até os últimos dias de vida. Deixou de herança um império já se esfacelando.

Narrativa

Fernando Morais apresenta a vida de Chateaubriand desde o nascimento até sua morte. São tantos detalhes e tantos fatos curiosos, que fica difícil resumir. Nomes conhecidos são apresentados a todo momento. Escritores, artistas, jornalistas, compositores e até nomes tão presentes no cenário político atual fazem parte da história. Morais é preciso ao citar fatos e pessoas, aprofundando quando é relevante. O livro é gostoso de ler, uma biografia disfarçada de romance. A vida de Chatô daria uma novela, mas ainda não consegui classificá-la, fiquei na dúvida se seria um drama ou uma comédia.

ATENÇÃO! Se você viu o filme “Chatô, o Rei do Brasil”, esqueça tudo e leia este livro. Você terá uma visão menos fantasiosa dessa figura tão icônica que foi Chateaubriand.

Edição

Esse foi um dos livros que estavam na estante da faculdade e que me chamavam toda vez. Ele é grande, são 732 páginas, mas que são consumidas com grande prazer. A edição que li é a segunda, publicada em 1994. Este ano, devido ao lançamento do filme, uma nova edição foi publicada pela Companhia das Letras.

chato
1ª Edição: 1994 (Fonte: internet)

Autor

Foi a primeira biografia nacional que li. E posso me considerar a mais nova fã de Fernando Morais. Sua narrativa é simples e fluida, sem termos rebuscados. A sequência dos fatos e a profundidade da narrativa é na medida certa. Ao citar um colega de trabalho, por exemplo, aprofunda-se nos detalhes apenas se for importante para entender o nível do relacionamento entre eles ou que justifique a história. O foco é, principalmente, nos fatos. Descrições físicas ou do ambiente são dadas apenas se forem relevantes.

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Fonte: internet

Numa entrevista à Carta Capital no início deste ano, Morais fala da contribuição do estilo jornalístico de Chateaubriand para as mídias atuais. Também vale a leitura.

Fonte

  • Morais, F. Chatô, o Rei do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. ISBN: 8571643962
  • Wikipedia

Receita de pão de queijo [2]

Vamos combinar que pão de queijo é bom a qualquer hora! Pode ser no café da manhã, um lanche rápido no fim de tarde, ou até mesmo para aquele dia que bate uma preguiça de fazer o jantar. Ele vai bem com café preto fresquinho ou com suco de laranja bem gelado. Dá para comer puro, com requeijão (depois que ele sai do forno, bem quentinho, hummmm!), rechear com presunto e queijo. Enfim, é soltar a imaginação e aproveitar!

Já publiquei uma receita dessa gostosura aqui no blog (confira aqui). É a versão da minha tia, que provavelmente foi passada a ela pela minha avó ou uma tia avó. É uma receita gostosa, que deixa os pães mais aerados, eles crescem muito, mas o interior fica todo cheio de buraquinhos.

Eu gosto mais daquelas versões massudas, que ficam com o interior bem macio e uma fina casca crocante, que é a receita que vou compartilhar com vocês hoje. Se não me engano, eu a obtive de um programa da EPTV (afiliada da Rede Globo no sul de Minas) chamado “Caminhos da Roça”.

Close da gostosura
Close da gostosura (os meus prefiro bem branquinhos)

Ingredientes:

  • 2 xícaras (chá) de polvilho (doce ou azedo)
  • 1 xícara (chá) de leite
  • 1/2 xícara (chá) de margarina derretida
  • 2 ovos
  • 1 xícara (chá) de queijo ralado (de preferência meia cura)
  • 1 pitada de sal

Modo de preparo:

  1. Coloque a margarina no microondas por 30 segundos para derreter e em seguida misture ao leite.
  2. Leve a mistura ao fogo até ferver.
  3. Em uma vasilha, coloque o polvilho e escalde com a mistura fervida. Reserve até esfriar.
  4. Quando estiver frio, acrescente os ovos, o sal e o queijo ralado e misture até obter uma massa homogênea.
  5. Passe óleo nas mãos e faça bolinhas com a massa.
  6. Coloque as bolinhas em uma assadeira e leve ao forno a 200° C por 30 minutos ou até dourar. Não é preciso untar a forma.

Rendimento: 20 pães de queijo médios.

Dicas:

  • Congelar: basta fazer as bolinhas, distribuí-las em uma vasilha de forma que não encostem umas nas outras e levar ao congelador por até 3 meses. Para assar, eu prefiro descongelar, mas também pode ir direto ao forno.
  • Recheio: assim que sair do forno, corte ao meio e recheie a gosto. Meu sabor favorito é o requeijão, mas pode ser frango desfiado, presunto e mussarela (ou muçarela?), cheddar, catupiri, queijo prato ou peito de peru.

Aprecie sem moderação!