Catadupas, outra vez

Livros são uma paixão, uma necessidade e um vício. Quanto mais leio, mais quero ler. Eles comandam o meu humor, um livro bom me anima, o triste me deprime, mas nem por isso deixo de ler. Trabalho meus sentimentos através deles, já que a vida real anda muito corrida para se sentir algo.

A leitura atual é “Amor de Salvação”, de Camilo Castelo Branco. Há treze anos tento lê-lo e nunca consegui. Desta vez parece que vai. O texto é complicado, num português lusitano do século XVIII que faria muita gente desistir, mas que eu aprecio. E o que acho mais interessante é que hoje eu entendo por que os estudantes odeiam a literatura obrigatória do ensino médio.

“Amor de Salvação” é a história de Afonso de Teive e Teodora Palmira. Foram prometidos um ao outro na infância pelas mães melhores amigas, porém o destino faz o favor de complicar um pouco as coisas. Lá pelas tantas, sofridas as desgraças que todo romance há de conter, Teodora escreve uma longa carta a Afonso, que segundo o amigo narrador, possui muito estilo.

Transcrevo aqui um trecho desta carta:

Transbordou um dia a amargura da minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri léguas. As árvores que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céu de bronze, as catadupas que bramiam no despenhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei à cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dois meses te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando há um ano te avistei encostado ao ombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se ela quiser que tu te percas por ele, amanhã não terás honra, nem família, nem marido, nem criatura sobre a terra que não te insulte.

Branco, Camilo Castelo; “Amor de Salvação”, São Paulo, Editora Ática, 6ª Edição, p. 70. Grifo meu.

A citação não está normatizada.

Primeiro: como as coisas mudaram em dois séculos!

Segundo, e o motivo deste artigo: mais um exemplo da utilização da palavra “catadupa”, hoje tão desconhecida.

Terceiro: este artigo não é uma resenha, apesar da categoria.

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O importante é se comunicar?

Quando eu estava no terceiro ano do ensino médio, minha professora de português/literatura disse uma frase para a turma que me incomodou profundamente e que me fez rever muitos dos conceitos que tinha. Resumidamente, ela disse que hoje não existe mais certo e errado para a escrita, que o importante é a informação ser passada, que a comunicação é a prioridade.

Pois bem, o fato é que eu sempre fui muito crítica com relação à língua portuguesa. Não quer dizer que eu saiba todas as regras e que escreva corretamente sempre, mas procuro não errar. Nunca tive interesse em estudar letras, mesmo porque a disciplina português nunca me agradou, seja pelo método de ensino, seja pela postura dos professores. O meu forte sempre foi a matemática.

Imagine a quebra de paradigma que esta professora não fez em mim? Primeiro eu relutei em aceitar esta informação, mesmo porque não tinha base nenhuma. Isso aconteceu em 2001 e as pessoas mal conheciam internet, faltava muito para a invenção do miguxês.

Sempre gostei de ler autores como Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, entre outros da mesma época. Gosto da maioria dos autores romancistas. Para mim, a leitura dos clássicos da literatura nacional era uma diversão. Dom Casmurro, Amor de Perdição, Esaú e Jacó, O Guarani, enfim, clássico é clássico e merece ser lido antes de ser discutido.

Quando li estes livros, eu devia estar entre a 5ª e a 7ª série. Sempre tive exemplos de leitores em casa e a quantidade de livros disponíveis me despertou o interesse que não perdi até hoje. Me acostumei ao tipo de escrita, que sempre foi defendida pelas minhas professoras. Menos por uma.

Meus colegas sempre reclamavam e as professoras diziam que era importante ler para conhecer a história, afinal, uma nação é construída baseando-se no seu passado. Aprender sobre o passado daria uma garantia maior de um futuro mais correto.

O problema é que a maioria não liga para o passado, seja histórico, seja literário ou artístico. Só que eles se esquecem que nada existe simplesmente por existir, houve uma série de fatos que levaram ao que temos hoje, principalmente na escrita.

Se os alunos têm dificuldade em aprender a língua portuguesa é porque a metodologia de ensino não explica a origem do idioma. Seria tão mais fácil, como já foi comprovado, se essa postura existisse. Não vou me aprofundar neste assunto porque aqui temos outra discussão que não faz parte deste post, mas em breve eu retomarei.

O que se vê agora é que as pessoas não se importam mais com o certo e errado, simplesmente fazem. Se foi entendido, ótimo. Senão, tentam de outra forma. A quantidade de pessoas que escreve errado é assustadora. Erros absurdos, totalmente sem noção. Outro fator preocupante é a quantidade de pessoas que consegue identificar o erro, cada vez menor.

Sinceramente, eu ainda continuo duvidando dessa minha professora, mesmo depois de todos esses anos e de tantos exemplos. Prefiro continuar tentando acertar.

Agora vou propor um desafio: conte quantos erros existem neste post e escreva nos comentários. Espero que ache muitos, assim vou poder dormir tranquila!