Defenestração – Dicionário Catadupas #1

Pessoas lindas!

Se tem uma coisa na vida que eu gosto muito é do português. Sim, nosso idioma é lindo, seja na fala ou na escrita. Aprender novas palavras e explorar seu significado, origem e história é muito interessante. Mas nem sempre foi assim. Se você não curte uma historinha, pule os próximos quatro parágrafos.

Uma breve recordação

“A long time ago, in a galaxy far far way”, eu era uma menina rabugenta que odiava estudar Português. Meu amor pela Matemática, confesso, sempre foi maior. Soma-se a isso a incapacidade de alguns professores em despertar o interesse dos alunos pelo conteúdo da sua disciplina. Quem vem da escola pública, como eu, sabe muito bem do que estou falando.

Tudo mudou quando, procurando aprender mais Matemática, fui fazer escola técnica de eletrônica. Parece frase de filme, mas é a pura verdade. Foi quando tive professores que pareciam realmente gostar de ensinar e sabiam do que estavam falando. Situação que poucas vezes encontramos no ensino público. Como já tinha um apreço pela leitura, me senti encorajada até mesmo a discutir literatura com eles. Foi uma experiência única.

E assim comecei a ter outra visão de uma disciplina que acreditava não gostar, mas que no fundo só não entendia. Ao começar a enxergar a lógica existente por trás de cada regra, foi mais fácil entender e aplicar.

Em homenagem ao nosso incompreendido idioma, estou inaugurando a seção “Dicionário Catadupas”. Serão apresentadas algumas palavras desconhecidas, seu significado e, caso possível, a origem e derivadas. Já escrevi anteriormente sobre algumas delas, começando pelo nome do blog (que você pode conferir aqui), sobre o que é a profissão de calceteiro (link aqui) e a palavra mais amada pelos mineiros (curioso? Veja aqui do que estou falando).

Diccionario, no eres
tumba, sepulcro, féretro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubies,
perpetuidad viviente
de la esencia,
granero del idioma.

Pablo Neruda, “Oda al Diccionario”.

Defenestração

A palavra de hoje é: defenestração. Já tem muito tempo ou vi esse termo e nunca mais me esqueci dele. A intenção era, como estou fazendo agora, escrever sobre ela. Mas acabava postergando. Só que ela nunca me abandonou. Curioso, não?

Defenestração. [Do fr., défenestretion.S. f. Ato de atirar alguém ou algo pela janela fora: A defenestração de Praga ocorreu em 1618.

Ou ainda:

Defenestrar. [Lat. defenestrare] V. t. d. 
1. Atirar (algo ou alguém) pela janela.  
2. Fig. Afastar ou expulsar (de cargo, partido, etc.)

Do francês: fenêtre (janela).

Em outros idiomas:

  • Alemão: Fenstersturz
  • Espanhol: Defenestrar
  • Francês: Défenestrer
  • Inglês: To defenestrate
  • Italiano: Defenestrare
  • Latim: Defenestrare

História

Dois fatos históricos ocorridos na capital da República Checa, são conhecidos pela “Defenestração de Praga”. O primeiro, datado de 1419, resultou na morte de sete membro do conselho da cidade, que se recusaram a libertar prisioneiros hussitas. Os homens foram atirados pelas janelas e caíram sobre lanças.

A segunda, e mais famosa, aconteceu em 1618, sendo o estopim da Guerra dos Trinta anos. Revoltados com as proibições impostas a eles, alguns protestantes jogaram pela janela do palácio real de Praga os representantes do sacro imperador romano-germânico Fernando II. Diferentemente do primeiro evento, eles não morreram, mas foram humilhados ao caírem em um fosso cheio de palha e detritos orgânicos.

Atualmente a palavra é mais utilizada com sentido de se livrar de alguém politica ou administrativamente, demitindo-a ou marginalizando-a.

Siglas:

  • Fig – figurado (sentido)
  • fr. – Francês
  • S. f. – Substantivo feminino
  • V. t. d. – Verbo transitivo direto

Fontes:

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975.
  2. FERREIRA, A. B. H. Mini Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2010.
  3. Wikipedia
  4. Barbosa, E. A Origem das Palavras. Bazar Editoria, 2010.

Você sabe o que é calceteiro?

No dia do #lingerieday, esse verbete chegou aos meus ouvidos. Parece algo ligado à calças, mas não é.

Definição do pai dos burros (o velho, não o Pai Google):

Calceteiro. [Do esp. calcetero] S. m. Operário que calça as ruas com pedras justapostas; empedrador.

Origem e história

As calçadas com pavimento existem desde os povos tribais, que construiam superfícies que serviam para execução dos rituais religiosos e rituais de poder.

Dentre os vários tipos mais conhecidos  existem as calçadas romanas, onde se utilizam pedras de diversos tamanhos e sem nenhuma uniformidade.

Calçada romana

Outro exemplo, porém mais recente, é a calçada portuguesa, que tem como característica a utilização de pedras de origem calcária e basáltica, em sua maioria pretas e brancas, formando desenhos.

Calçada portuguesa

Calceteiro provavelmente é uma das mais antigas profissões conhecidas, da mesma forma que a de prostituta.

Devida à prática de reaproveitamento de pedras para novas construções, são poucos os exemplares antigos que chegaram aos nossos dias em bom estado de conservação.

Atualmente a maioria das cidades tem suas ruas cobertas por asfaltos, uma técnica mais barata, porém nem tão bonita. Os carros agradecem, mas a cidade fica com cara de cidade grande, o que em Minas Gerais é algo que não queremos.

Por estar cada vez mais difícil empregar este profissional, vemos muitos trabalhos sendo realizados de forma incorreta, tendo que ser refeito constantemente.

Ouro preto (foto) é um exemplo de um trabalho bem feito e duradouro.

ouro_preto2

Em compensação, em Santa Rita do Sapucaí não há uma rua que não esteja sendo remexida para consertar um serviço malfeito. Minha rua que o diga.

Para fechar este post, um pouco de cultura, um pequeno poema que encontrei em minhas pesquisas, de um autor chamado Tony (não encontrei maiores referências).

Lembrai-vos desta arte,
Penso que tem defesa!
Aparece em toda a parte,
Pois ela é bem portuguesa.

Quis sobretudo ser franco,
Fala aberto o coração!
Trabalho o preto e o branco,
Sou um ourives do chão.

Por que mineiro fala “trem”?

Segundo o Aurélio:

Trem: [Do fr. train.] S. m.

1. Conjuntos de objetos que formam a bagagem de um viajante.

2. Comitiva, séquito.

3. Mobiliário duma casa.

4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços.

5. Carruagem, sege.

6. Vestuário, traje, trajo.

7. Mar. G. Bras. Grupamento de navios auxiliares destinados aos serviços (reparos, abastecimento, etc) de uma esquadra.

8. Bras. Comboio ferroviário; trem de ferro.

9. Bras. Bateria de cozinha.

10. Bras. Pop. Qualquer objeto; coisa, treco, troço.

11. Bras., MG e S. Fam. Indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste. • Adj. 2 g. e 2 n.

12. Bras., MG Pop. Diz-se de pessoa sem préstimo e/ou de mau caráter: É um sujeito muito t r e m; São mulherzinhas muito t r e m. ~ V. trens.

Trem de aterragem. V. trem de aterrisagem. Trem de aterrissagem. Mecanismo sustentador das rodas do avião; trem de aterragem, trem de pouso. Trem de ferro. Bras. Trem (8). Trem de onda. Fís. V. pacote de onda. Trem de pouso. V. trem de aterrissagem. Trem de vida. Maneira de alguém da família viver, geralmente quanto aos gastos, ao nível econômico: “Não há …. desprestígio para o sertanejo nordestino em ter permanecido dentro dessas limitações com o seu  t r e m  d e  v i d a  insignificante, em termos de riqueza.” (Souza Barros, Cercas Sertanejas, pp. 15-16).

Destaque para a definição número 10. Bem que já me disseram que mineiro é inteligente, agora o Aurélio comprova. Se trem é qualquer coisa, pra quê complicar? Para um bom entendedor, trem é trem.

Por que “Catadupas”?

Catadupas: fem. plu. de catadupa – [Do gr. katadoúpa, pelo lat. catadupa]. S. f. 1. Queda de grande porção de água corrente;  queda d’água; salto. 2. P. ext. Jorro, derramamento: “Falava como todos nós falamos; não era já nem sombra daquela  c a t a d u p a  de ideias, de imagens, de frases, que mostravam no orador um poeta.” (Machado de Assis, Páginas recolhidas, p. 50) – Em catadupas. Em grande quantidade: Zangado, os palavrões saem-lhe em c a t a d u p a s.

A escolha pelo nome do blog nem é pela definição do Aurélio, mas sim para fazer uma homenagam à minha cidade natal, Cachoeira de Minas, que um dia se chamou Catadupas. Uma forma de agradecimento pelos bons momentos que passei por lá e que espero ainda passar.

Estou de mudança de endereço virtualmente, até hoje mantinha o Virtualizando [thaisrezendeb.blogspot.com], talvez ainda mantenha, por ter sido meu primeiro blog. Mas não tinha muita personalidade, nem um nome definido, o que me incomodava muito. Ele passou por uma remodelagem, graças à minha amiga Carina (ok, Cah, eu nunca sei qual é o seu blog número 1, nem sei se tem, vai esse mesmo). Acho que agora vou precisar de uma ajudinha com esse.

Aos poucos vou fazendo deste blog um pouco de mim, divagar sobre alguns assuntos, questionar outros, lamentar. O objetivo é ter onde expor um pouco do que fica guardado em mim, extravasar sentimentos e me permitir ter um amigo mais que fiel (e que fique calado, pelo menos até que venham os comentários).

Não tenho compromisso com uma área específica, não quero me prender em um blog de tecnologia, política ou esporte. Um pouco de cada um deles, talvez atualidades, literatura, um pouco de mim.

Espero ver você por aqui mais vezes. Até a próxima!