Resenha: O Jeito Macintosh

Se eu tinha pretensão de manter as leituras em dia enquanto durassem os estudos de engenharia, posso afirmar, após passada a metade do curso, que eu estava sonhando acordada. A missão de ler pelo menos um livro por mês foi por água abaixo. Mas sigo firme na meta e tento tirar o atraso quando dá, mais precisamente nas férias (dos estudos, porque o trabalho continua).

O escolhido da vez foi “O Jeito Macintosh”, de Guy Kawasaki. Este livro foi um presente do namorido de no dia dos namorados (mas recebido com antecedência, porque ele não consegue esperar).

O livro foi escrito em 1989, são vinte e sete oito* anos separando a escrita do livro do momento desta resenha. A Apple não é mais a mesma, muita coisa mudou de lá para cá. O mercado mudou. Nesses quase trinta anos, a equipe é praticamente outra. Mas o que impressiona é que as técnicas listadas por Kawasaki, adotadas pela empresa em seu posicionamento de mercado, são mais atuais do que nunca.

Essa é uma máquina mortífera, listada na Fortune 500, que existe para aumentar a riqueza de seus acionistas. Se você pode ajudar os acionistas, talvez até consiga ajudar a si mesmo.

É uma visão de mercado que pouco vemos no Brasil e quando adotada, é mal vista por ser tipicamente capitalista. Preza-se pelos resultados, pela competência e em nenhum momento ouve-se falar de protecionismo. Caso clássico foi a demissão de Steve Jobs da própria empresa, da qual era fundador.

Há uma frase muito interessante que é praticamente o cerne da história, citada em diversas passagens. Kawasaki diz que o jeito Macintosh é “fazer a coisa certa e fazer as coisas da maneira certa”. A princípio, parece um pleonasmo, mas ela vai sendo aplicada e explicada em cada capítulo, reservado a tratar de um tópico específico (de vendas a pós vendas, qualidade do produto, marketing, entre outros). No final, é fácil entender o que ele quis dizer e tudo começa a fazer sentido.

É um livro escrito por um engenheiro, numa época em que as edições não eram tão bem trabalhadas. A diagramação é ruim, os textos remetem à época e muitas piadas deixam de ser entendidas por quem é mais novo (meu caso). O marido entendeu a maioria delas, uma vez que ele é expert no que diz respeito à história da Apple. Porém, não posso desmerecer a genialidade de uma equipe que inventou a administração moderna.

Por morar em uma cidade que respira empreendedorismo, estou em contato permanente com profissionais do ramo, seja aquele que empreende ou que ensina a empreender. O que vejo é que, apesar da nossa cultura ainda cultivar o protecionismo estatal, existem pessoas que desafiam a lógica e se jogam no mercado, colocando em prática seus sonhos e suas ideias. Ou pelo menos tentando.

Não é uma tarefa fácil, tenho amigos empresários que frequentemente cogitam largar tudo. A burocracia para desenvolver, homologar e vender um produto é tamanha, que o esforço para colocar o produto no mercado muitas vezes não compensa o lucro. Entre pagamento de funcionários, impostos (ah, como sofro com essa maldita legislação fiscal!) e competitividade, há sempre que se pesar responsabilidade x liberdade.

No Brasil, dificilmente uma empresa com o porte da Apple conseguiria se sustentar sem apoio do governo (vide Odebrecht, OAS, Andrade Gutierres, entre outras). Mas por ser independente foi que se tornou uma empresa revolucionária.

Há duas coisas a se almejar na vida: conseguir o que se quer, e saber apreciá-lo. Apenas os mais sábios entre os homens alcançam a segunda.

Logan Pearsall Smith

  • Pra variar, a resenha foi escrita em 2016 e só agora concluída.
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Resenha: O Circo Mecânico Tresaulti

Ah! Como é bom voltar a resenhar! Melhor ainda é finalizar um livro. E daqueles que te deixam um sentimento esquisito.

Explico.

O escolhido foi um presente de Natal. Paixão à primeira vista. Porque, quem não se abala por esta capa? É daqueles livros que você nunca ouviu falar, mas olha para ele e pensa: pode uma capa tão linda assim conter uma história que valha a pena?

O livro

O Circo Mecânico Tresaulti, cujo título original é “Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti”, foi escrito por Genevieve Valentine (2011) e traduzida ao português por Dalton Caldas (2013). Minha edição é a capa dura em alto relevo, Edição Limitada da DarkSide, de 2016. Além do ótimo trabalho de capa, contém ilustrações interiores (Wesley Rodrigues, 2013) e vem com fita marcadora de página e um marcador extra de formato bem diferente dos comuns. Um verdadeiro regalo!

A dificuldade maior é o tema: circo. Quem me conhece sabe que não sou muito fã. Só que a curiosidade foi maior que a falta de interesse.

A sinopse oficial diz (sem spoilers):

Respeitável público, o Circo voltou!
Num mundo pós-apocalíptico, onde as pessoas não tem mais acesso à tecnologias de ponta, uma caravana circense leva esperança por onde passa. Os artistas são sobreviventes de guerra, que tiveram seus corpos mutilados reconstruídos com complexas estruturas mecânicas.

Ao começar a ler, tive a sensação de estar entrando no mundo de Stephen King, personagens estranhos, tempos esquisitos, histórias sinistras, que invocam a imaginação e te mantêm em suspense; porém mais romantizado.

As narrativas são curtas e vagas, pequenos parágrafos. Às vezes em primeira pessoa, apresentando a visão de Little George, o único que se mostra desta forma; a maioria das vezes em terceira pessoa, mesmo quando do ponto de vista de outra personagem. Quando, em alguns momentos, apenas duas personagens se interagem, a autora os trata apenas de “ele” e “ela”, o que pode causar uma pequena confusão se a leitura for feita displicentemente.

Confesso que fiquei desanimada no início, demorei a entender qual era o sentido da história e me senti enfadada. Pesquisei um pouco e percebi que outras pessoas tiveram a mesma sensação e que o estilo da autora incomodou alguns. Tanto que a obra não é uma unanimidade. Nenhuma é.

Fato que persisti e não me arrependi. Quando percebi, estava ansiosa por mais um capítulo. Mesmo sendo pequeno, apenas 320 páginas, o que daria para ler em um final de semana, ainda mais com feriados, estava em período de provas. O jeito foi aproveitar para ler pequenos trechos antes de dormir. E assim, a ansiedade só aumentou.

Sinto-me atraída pela complexidade e o sofrimento das personagens. Fui arrebatada pela necessidade de saber de onde vieram e para onde estariam seus integrantes. Difícil dizer mais sem revelar a história.

Ao fim, ficou a vontade de relê-lo, agora compreendendo todo o estilo desde o começo. Estou aqui, olhando para o livro e pensando se seria melhor aguardar um pouco mais, até que esse sentimento confuso passe, ou aproveitá-lo. É tão difícil decidir.

A autora

Genevieve Valentine, americana nascida em 1981, é escritora de ficção científica e fantasia. Seu primeiro romance foi “O Circo Mecânico Tresaulti”, vencedor do Crawford Award 2012 e indicado ao Prêmio Nebula. Dentre os diversos trabalhos realizados, destaca-se como escritora de “Catwooman” para a DC Comics.

Pesquisando um pouco mais, encontrei esta animação tão fantástica quanto a bela edição da DarkSide.

Animação por DarkSide Books

Minha nota? Pelo início um pouco confuso:4 estrelas

Resenha: Chatô, o Rei do Brasil

Falar de História é sempre bom. Mas preciso confessar, mesmo sendo filha de professora, nunca gostei muito. Provavelmente pelo mesmo motivo que a maioria: a forma de expor os fatos. Nem sempre os professores estão preparados para transformar as páginas dos livros em conteúdo interessante para o aluno. Ou ainda, a escolha do material didático não é satisfatória, talvez pela ineficiência de quem avalia, ou pela falta de opções. O público infanto-juvenil precisa ser tratado de uma forma diferenciada e poucos autores possuem essa capacidade.

Dos autores biográficos, considero Laurentino Gomes e Fernando Morais exemplos a serem seguidos. São autores que apresentam os fatos e contemporizam as análises. Do primeiro já havia lido 1808, 1822 e a edição juvenil de 1889. De Morais, nada tinha passado pelas minhas mãos, mas a lista de desejos está repleta das suas obras. É com muito prazer que escrevo uma resenha de uma obra de Fernando Morais: Chatô.

História

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, paraibano de nascença e pernambucano de coração, formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, foi jornalista, empresário, político e uma das figuras públicas mais influentes entre as décadas de 1940 e 1960.

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Sua vida pessoal e profissional nunca foram tranquilas. Há sempre uma história inusitada a se contar. Casado apenas uma vez, teve três filhos, mas apenas um do casamento oficial. Da recusa em reconhecer um filho ao sequestro da filha, o relacionamento entre pai e filhos sempre foi conturbado. Além disso, tinha forte queda por mulheres e, dizem alguns, fazia pouca distinção, o que lhe trouxe pequenos inconvenientes.

Figura controversa, muitas vezes acusado de falta de ética, não media esforços para conseguir o que queria. Dotado de grande ambição e de uma visão de negócio aguçada, diziam que tudo que tocava virava ouro. Muitos de seus feitos foram conquistados graças a doações ou financiamentos. Pouco saía realmente do seu bolso. Foi capaz de construir um grande império das comunicações, chamado “Diário Associados”, mas também de contrair grandes dívidas. Devido ao seu prestígio ou ao seu lápis afiado, quase nenhuma chegava a ser cobrada.

Na política, apoiava aquele que lhe proporcionasse o que queria. Era capaz de eleger um presidente num dia e no outro depô-lo. Apoiou o amigo Getúlio Vargas nas eleições de 1930, mas logo mudou de opinião, passando a escrever artigos contra seu governo, contribuindo, assim, para o crescimento da impopularidade do governo vigente. Seu apoio e, consequentemente, de seus jornais, era disputado por quem quisesse governar, seja o país, o estado ou uma cidade. Aquele que fosse contra Chatô pouca chance tinha de se eleger. Seu poder era tamanho, que foi capaz de fazer Vargas promulgar uma lei que lhe garantisse a guarda da filha. Foi eleito duas vezes senador em eleições escandalosamente fraudulentas.

Nos negócios agia com a mesma avidez. Quando encontrava alguém que fizesse oposição ao seu comportamento ou opinião, ou ainda que estivesse tentando tomar seu espaço na mídia, tratava logo de desmerecer seu oponente. Era capaz de bisbilhotar a vida pessoal do opositor até encontrar algum “podre” que pudesse ser explorado. Quando não havia, era sua imaginação que entrava em ação. Tal comportamento lhe rendeu muito inimigos, entre eles Rui Barbosa e Rubem Braga. Se temos uma imprensa como a nossa, é graças a Chateaubriand.

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Duas áreas tiveram forte desenvolvimento no país graças a ele: as telecomunicações e a aviação civil. Ávido por novidades tecnológicas, quando era apresentado a uma, não media esforços para trazê-la ao país. Foi assim com o rádio e a televisão. Foi pioneiro nas transmissões através da criação da TV Tupi. Uma terceira contribuição de Chatô para o Brasil encontra-se nas Artes, com a criação do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que leva o seu nome.

Faleceu em abril de 1978, aos 75 anos, devido a complicações de uma trombose, doença pela qual lutou por oito anos e que o tornou paraplégico, com dificuldade para falar e escrever. Mesmo assim, continuou publicando artigos até os últimos dias de vida. Deixou de herança um império já se esfacelando.

Narrativa

Fernando Morais apresenta a vida de Chateaubriand desde o nascimento até sua morte. São tantos detalhes e tantos fatos curiosos, que fica difícil resumir. Nomes conhecidos são apresentados a todo momento. Escritores, artistas, jornalistas, compositores e até nomes tão presentes no cenário político atual fazem parte da história. Morais é preciso ao citar fatos e pessoas, aprofundando quando é relevante. O livro é gostoso de ler, uma biografia disfarçada de romance. A vida de Chatô daria uma novela, mas ainda não consegui classificá-la, fiquei na dúvida se seria um drama ou uma comédia.

ATENÇÃO! Se você viu o filme “Chatô, o Rei do Brasil”, esqueça tudo e leia este livro. Você terá uma visão menos fantasiosa dessa figura tão icônica que foi Chateaubriand.

Edição

Esse foi um dos livros que estavam na estante da faculdade e que me chamavam toda vez. Ele é grande, são 732 páginas, mas que são consumidas com grande prazer. A edição que li é a segunda, publicada em 1994. Este ano, devido ao lançamento do filme, uma nova edição foi publicada pela Companhia das Letras.

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1ª Edição: 1994 (Fonte: internet)

Autor

Foi a primeira biografia nacional que li. E posso me considerar a mais nova fã de Fernando Morais. Sua narrativa é simples e fluida, sem termos rebuscados. A sequência dos fatos e a profundidade da narrativa é na medida certa. Ao citar um colega de trabalho, por exemplo, aprofunda-se nos detalhes apenas se for importante para entender o nível do relacionamento entre eles ou que justifique a história. O foco é, principalmente, nos fatos. Descrições físicas ou do ambiente são dadas apenas se forem relevantes.

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Fonte: internet

Numa entrevista à Carta Capital no início deste ano, Morais fala da contribuição do estilo jornalístico de Chateaubriand para as mídias atuais. Também vale a leitura.

Fonte

  • Morais, F. Chatô, o Rei do Brasil. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. ISBN: 8571643962
  • Wikipedia

Resenha: O Homem que Matou Getúlio Vargas

O Homem Que Matou Getulio VargasTalvez este post não mereça estar na categoria “resenha”, mas já que estamos falando de livro…

Eu juro que tentei. Fui até a página 93. Mas foi demais para mim!

Já faz algum tempo que esta história entrou para a minha lista de futuras leituras. Mês passado consegui um exemplar (porque eu havia dito que não compraria mais nenhum livro do Jô). Tamanha decepção!

Não gosto do estilo Jô Soares escritor. Esse é o terceiro livro de sua autoria que leio, “As Esganadas” e “O Xangô de Baker Street” são os outros. Todos iguais, todos chatos, todos com a marca do autor. Foi a gota d’água! É um exagero de palavras difíceis, do “estrangeirismo”, de clichês.

Tentei ler pulando linhas, absorvendo o essencial, para ir o mais longe possível. Mas tornou-se uma leitura repulsiva, só de pensar sinto náuseas.

Parei logo, antes de perder mais do meu precioso tempo e da minha paciência.

Jô Soares consegue ser pior que Dan Brown, que usa quase os mesmos artifícios: clichês e roteiro pré-formatado. A diferença é que o segundo é mais sutil e consegue prender o leitor na tensão do momento, coisa que a comédia escrachada do Jô não faz. Me cansei dele como apresentador há muito tempo, agora nem quero saber como escritor.

Não descobri quem matou Getúlio, nem quero que me contem. Esperava mais de um tema importante da nossa história.

Este livro não ganha estrelinhas porque não consegui chegar até o fim. Entrou para a minha pequena lista de abandonos. Agora são três: este, “O Segredo” e “O Alquimista” do Paulo Coelho. Além disso, da mesma forma que Paulo Coelho, Jô Soares também passa a ser um escritor banido da minha existência.

Não compro e nem recomendo. Se quiser arriscar, depois não diga que não avisei. 😛

Resenha: Barba Ensopada de Sangue

Livro "Barba Ensopada de Sangue"

Imagine a cena: ao final do último parágrafo, fecho o livro e fico paralisada, tentando entender aquilo que li. Faz tempo que isso não acontece, além de ser muito raro. O último, se não me engano, foi com “O Amor nos Tempos do Cólera”.

Tem muita gente falando desta história, Daniel Galera está sendo bem visto não só no Brasil. E digo que há razão. Estou tentando achar as palavras certas, mas confesso que é difícil explicar os motivos do livro ser tão bom.

Começando pela história, que se passa em sua maior parte da pequena cidade litorânea de Garopaba, em Santa Catarina. É a história de um professor de educação física que se isola numa cidadezinha após a morte do pai.

A princípio, parece uma pessoa simples, que procura o isolamento para se dedicar ao que gosta e viver sossegado. Com o decorrer percebemos que trata-se uma personagem complexa, com uma história de vida nada fácil, que vai sendo exposta aos poucos e se encaixando lentamente, até percebermos todo o cenário que o levou até Garopaba.

Quando comecei a ler, me identifiquei com o professor, tanto na vontade, que provavelmente a maioria já teve, de largar tudo e ir morar num lugarzinho pequeno à beira da praia, quanto no jeito de ser. Ele é meio fechado, tem poucos amigos e aparenta não se incomodar em viver sozinho. Um problema durante o parto causou uma doença neurológica que o impede de reconhecer rostos.

A descrição dos cenários paradisíacos me deixaram com vontade de juntar minhas coisas e me mudar para o litoral catarinense, pelo qual já tenho uma queda, preciso confessar. Outro fator que me identifiquei foi com as crendices populares. Quem já morou em cidade pequena sabe bem como isso funciona. Um boato aqui, uma história ali, que vai passando de boca em boca e, no final, toma vida própria até virar lenda.

Não fica muito claro se o fato do sujeito ser fechadão é consequência da doença, que faz com que ele não crie muita empatia com as pessoas, ou se é uma característica nata. Já convivi com pessoas assim e eu mesma, preciso admitir, sou bem esse estilo. Para quem nos vê de fora, parecemos complicados, mas não passamos de pessoas comuns que se expressam pouco.

A narrativa no presente me incomoda um pouco, no começo é bem difícil de se adaptar e deixa a leitura um pouco lenta, mas depois discorre com facilidade. Não sei se a intenção do autor era essa, mas me senti dentro da história, como seu eu estivesse nadando com o professor, vivendo naquele pequeno apartamento, sentindo o frio que ele sentia.

Os diálogos são naturais e contemporâneos, escritos da mesma forma que falamos. Dá até para imaginar o sotaque bem parecido com os manezinhos da ilha.

Quando cheguei ao fim, me senti meio órfã, como se a história não tivesse o direito de acabar ali. Queria saber mais sobre o sujeito cujo nome, até então eu não havia percebido, não fora revelado. E talvez isto reforce a ideia de que vivi a sua história, como se estivesse dentro da sua cabeça, ouvindo seus pensamentos. Só agora me dou conta de como soava estranho quando um trecho descrevia algo que não tinha relação direta com o professor. Era como se alguém tivesse anotado apenas para situar o contexto.

Descobri hoje que há três cores diferentes de capa: vermelha, que foi a que li, azul e verde. Não consegui descobrir o motivo e se alguém souber, deixe aí nos comentários! 😉

Concluindo: é um livro para ler, recomendar e presentear sem medo de errar.

Mais um que entrou na minha listinha top: 5 estrelas

 

Update: para quem não gosta de saber o fim da história antes, NÃO LEIA O PRÓLOGO.

Resenha: O Seminarista

Tenho repensado a forma de fazer minhas resenhas. A partir de agora vou tentar analisar separadamente os vários aspectos da obra, tais como: enredo, estilo do autor, tradução – quando houver -, capa e qualidade da impressão. Obviamente que estou falando de obras impressas, as que leio em formato digital não dá para falar de todos estes quesitos, mas acredito que este novo formato possa ser mais útil, uma vez que o livro não é composto somente de uma história e que de uma edição para outra muda-se muita coisa.

Capa do Livro O SeminaristaPois bem, a obra escolhida desta vez foi “O Seminarista”, de Rubem Fonseca. Tenho que admitir aqui que até então nunca tinha ouvido falar neste autor. “Minerin de Giz di Fora”, formado em Direito pela UFRJ, trabalhou como policial até se licenciar para se dedicar aos estudos e, posteriormente, à literatura, escrevendo, além de livros, roteiros cinematográficos.

Sua obras são conhecidas por misturar fatos históricos à ficção. Adota um estilo direto, seco, áspero e sem rodeios para falar de violência, sensualidade e solidão, o que fica bem claro já na primeira leitura. Com “O Seminarista” não é diferente.

O protagonista se chama José, ex-seminarista que gosta de poesia, vinho e rock. Considera-se um homem simples, a começar pelo nome, acredita que a mãe já pressentira isto e, portanto, deu-lhe um nome comum.

O que não é simples, nem comum na vida de José é o seu trabalho: assassinato por encomenda. Isso mesmo, ele ganha a vida como matador de aluguel. Apesar dos riscos da profissão, ele conseguiu não chamar a atenção durante anos e, por isso, é considerado um dos melhores. Mas ele decide se aposentar e viver sossegado, se é que é possível que seja mais. E é nesse ponto que a história começa.

Comprei o livro numa promoção e confesso que pelo preço não dei muito crédito. Fui mais pelas indicações que li na internet, nem me dei ao trabalho de ler a sinopse. O título me chamou a atenção, mas eu não entendia o por quê. Até que recentemente li a resenha do André Gazola (do Lendo.org) e descobrir o motivo: O Seminarista me lembra O Ateneu, O Mulato, Os Sertões e tantas outras obras literárias brasileiras largamente recomendadas no ensino médio e cursinhos pré-vestibulares. Ledo engano.

Foi um bom engano. A narrativa é em primeira pessoa, então tudo que é contado é do ponto de vista de José. Um estilo que particularmente não aprecio, mas neste caso foi uma escolha acertada. Me senti cada vez mais dentro da cabeça do protagonista, vivendo seus receios e angústias. Tudo parece ter vida, cheguei a imaginar o José na minha frente contando sua história. Em alguns momentos, parecia que ele estava me levando para um passeio, revivendo suas memórias, tipo aqueles filmes de ficção científica, onde uma pessoa entra na mente da outra e elas caminham pelas suas lembranças.

Um trecho da história:

Quando disse ao Despachante que não ia mais fazer qualquer serviço para ele, o cara ficou ainda mais branco do que era.

“Você não pode fazer isso.”

“Posso.”

“Não tome atitudes impulsivas, você vai se prejudicar.”

“Perdi o estímulo.”

“Você sempre gostou do seu trabalho…”

“Como no lindo soneto do Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… Chega uma época em que procuramos outros caminhos, entendeu? O Sêneca tem uma boa frase sobre isso, alia tentanda est via.

“Pense bem, no nosso métier as coisas não mudam. Temos responsabilidades…”

“Eu pensei bem.”

Estendi a mão para o Despachante Ele hesitou por um momento, mas apertamos as mãos em despedida. Ele continuou pálido.”

Obviamente que o trecho não contém palavras de baixo calão, que é frequente. José é real e é isso que torna a história mais interessante.

Dos livros que li em 2013, este talvez seja o que mais me impressionou, tanto pelo estilo do autor quanto pela história. Mesmo hoje, depois de alguns meses, quando penso nela, sinto a mesma ansiedade,  a mesma tensão e tantos outros sentimentos que José sentia, ou deveria sentir.

Com relação à capa, percebo que foi uma escolha acertada, é totalmente compatível com a história e com o protagonista. Até neste ponto a simplicidade está a favor do livro.

O meu exemplar é a primeira edição publicada pela Editora Agir (grupo Ediouro), tem 179 páginas. As folhas são em papel pólen, o que dá uma textura diferente, mas uma leveza que deixa o livro bom de ler.

RUBEM FONSECA: VIOLENTO, ERÓTICO E, SOBRETUDO, SOLITÁRIO — Fernanda Cardoso

Depois deste livro, posso dizer que Rubem Fonseca entrou na lista dos meus escritores favoritos e já estou ansiosa para ler o resto de suas obras. Também, o que dizer de alguém que ganhou nada mais que cinco Prêmios Jabuti e o Prêmio Camões.

Espero que, com este texto, eu tenha conseguido me redimir dos anos ignorando este fantástico escritor.

Acho que já dá para adivinhar a minha nota, né? Nota 5, sem questionamentos.

Resenha: O Símbolo Perdido

Mais uma aventura escrita por Dan Brown e protagonizada por Robert Langdon, desta vez na capital americana, envolvendo a comunidade maçônica e todos os seus mistérios, que se mistura com a história dos Estados Unidos (poderia dizer do mundo inteiro?).

Fórmula básica de Brown: Robert Langdon, simbologia, uma sociedade secreta, uma mulher bonita e uma cidade rica historicamente. Depois de “O Código da Vinci”, “Anjos e Demônios” e “Fortaleza Digital”, este último o pior de todos, fica fácil identificar o perfil do escritor e ter dúvidas se realmente vale a pena gastar algumas horas com mais um repeteco. Eu me arrisquei.

O Símbolo PerdidoInfelizmente o que eu li foi mais do mesmo, ou nem tanto, já que “O Código da Vinci” e “Anjos e Demônios” são, em alguns momentos, empolgantes. “O Símbolo Perdido” nem chega a isso. A espera pelo clímax se torna frustrante, os desfechos são mal arranjados e tudo acaba como começou: sem sentido.

Os fãs de Dan Brown podem ficar irritados com esta resenha, mas o fato é que a história não acrescenta nada, nem mesmo a enfatização aos mistérios maçônicos, que não sei até que ponto são tão misteriosos.

Acrescenta-se a isto o fato de que eu tenho minhas restrições quanto à maçonaria, por total falta de conhecimento mesmo.

Mas nos atemos ao enredo. Que a maçonaria está presente em muitos episódios da nossa história é um fato e que os americanos gostam de enxergar intrigas em qualquer lugar também. O que mais impressiona é que, como eu, a maioria é ignorante sobre o assunto e, por conta disso, elaboram as mais fantasiosas ideias de conspiração em torno da instituição. Um pouco de estudo pode mostrar o quanto as pessoas podem estar erradas em considerar a maçonaria uma sociedade secreta. Pior de tudo, considerar como verdade tudo que dizem contra ela. As próprias personagens do livro agem desta maneira, a tal ponto de ser cômico.

Tentei durante dias encontrar algo interessante que valesse a pena destacar, mas não encontrei. Nenhuma lição de moral, nenhum desfecho surpreendente, nada a não ser mais Dan Brown e seu estilo literário.

A sensação que eu tenho ao escrever este artigo é que não tenho nada a dizer sobre o livro, ficou tudo muito vazio. Confesso que esperava um pouco mais.

Minha avaliação: 2